"Um modo de vida ancestral": artivista do Território da Bacia do Rio Corrente, Amanda Alves celebra os Povos de Fundo e Fecho de Pasto em exposição nos 9 anos do Museu do Cerrado
Em uma noite marcada por celebração, memória e resistência, o Museu do Cerrado comemorou seus 9 anos com o lançamento da exposição fotográfica "Povos de Fundo e Fecho de Pasto: um modo de vida ancestral", da artivista audiovisual Amanda Alves — integrante do projeto de pesquisa Cultura, Alimento e Identidade, que atua no fortalecimento do Território da Bacia do Rio Corrente.
A abertura aconteceu por meio de uma live organizada pela professora doutora Rosângela Azevedo Corrêa, coordenadora do Museu do Cerrado, reunindo representantes das Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto do Oeste da Bahia. Participaram do diálogo o fecheiro Izaurino Filho e a fecheira Elziene Abreu, que compartilharam reflexões sobre a história, os desafios e a importância desses povos para a conservação do Cerrado.
Um modo de vida com mais de 300 anos
Com mais de três séculos de existência, as Comunidades Tradicionais de Fundo e Fecho de Pasto são reconhecidas por seu modo de vida baseado no uso coletivo dos territórios, conhecidos como "fechos" ou "gerais". Ao longo de gerações, têm desempenhado papel fundamental na proteção do Cerrado em pé, das águas, dos solos, da biodiversidade e dos conhecimentos tradicionais associados ao bioma.
Seu sistema produtivo integra a criação extensiva de gado em áreas comunais, o extrativismo sustentável de plantas medicinais e alimentícias e a preservação de práticas culturais, religiosas e modos de vida profundamente conectados ao território — valores que dialogam diretamente com os princípios defendidos pelo Colegiado e pelo projeto Cultura, Alimento e Identidade.
Territórios sob ameaça
Apesar de sua importância, essas comunidades enfrentam ameaças constantes. A grilagem de terras, antes impulsionada pelo desmatamento e pela expansão do agronegócio em larga escala, assume hoje novas formas. O que os próprios moradores chamam de "grilagem verde" refere-se à apropriação de áreas historicamente conservadas pelas comunidades para compor reservas legais de empreendimentos privados.
Enquanto isso, milhares de famílias seguem aguardando há décadas a regularização fundiária de seus territórios. Garantir esses direitos representa não apenas o reconhecimento de uma dívida histórica do Estado, mas também uma estratégia essencial para a preservação da sociobiodiversidade, para a justiça climática e para a manutenção do meio ambiente que beneficia toda a sociedade.
O olhar de Amanda Alves
Amanda Alves é natural de Jaborandi/BA e tem atuação ativa em todo o Território da Bacia do Rio Corrente. Segundo ela, a exposição é fruto de uma trajetória de convivência, escuta e compromisso com os povos tradicionais do Cerrado.
"Mais do que imagens, esta exposição apresenta histórias de resistência, pertencimento e cuidado com o Cerrado. São registros que revelam um modo de vida ancestral que segue vivo, apesar das muitas ameaças enfrentadas pelos povos de Fundo e Fecho de Pasto."
A artivista também ressaltou o alcance do trabalho, disponível em dois idiomas:
"É gratificante saber que outras pessoas vão poder, através desta exposição, mergulhar no modo de vida ancestral dos povos e comunidades de Fundo e Fecho de Pasto. A exposição está em português e inglês, isso vai possibilitar que outras partes do mundo possam, além de visualizar as fotografias, ler as legendas e compreender um pouco sobre esse modo de vida tão brasileiro, tão nosso!"
Seu desejo é que as fotografias sensibilizem o público, provoquem reflexões e aproximem mais pessoas da realidade dessas comunidades que, há gerações, contribuem para a conservação da sociobiodiversidade brasileira.
Um convite à imersão
A exposição convida os visitantes a uma imersão nos territórios, nas paisagens e nas histórias dos povos de Fundo e Fecho de Pasto, permitindo sentir o Cerrado pulsar por meio de imagens, memórias e narrativas construídas por quem vive e cuida desse bioma.
A mostra virtual está disponível gratuitamente e pode ser acessada pelo link: https://artsandculture.google.com/story/pgXxo7_fcgl5Yw
As comunidades de Fundo e Fecho de Pasto convidam toda a sociedade a conhecer essa história e a refletir sobre a importância da defesa dos territórios tradicionais para o futuro do Cerrado e do planeta.